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Sobre tudo que não ficou dito

Posted by Carol Riff On 2.11.16 1 comentários
Tudo que não ficou dito guardo comigo
Que é maior que o infinito
Tudo que não ficou dito é quase um problema
Difícil guardar tanto sendo tão pequena

Tudo que não ficou dito é imensidão
Que se perde nas batidas dum acelerado coração
Tudo que não ficou dito é carinho velado
Tudo que sinto quando estou do seu lado

Tudo que não ficou dito, que sem querer eu confesso
No brilho escondido de cada olhar olhar que te dispenso
Tudo que não ficou dito, sobre a mardita saudade
Sem você parece que não sinto a danada da felicidade

Tudo que não ficou dito é maior que o infinito
Quase tão grande quanto meu anseio de voltar para meu abrigo. 
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Saudade II

Posted by Carol Riff On 10.9.15 0 comentários
Saudade é como a brisa gelada de um fim de tarde quente que refresca, traz bons momentos mas logo depois esfria, congela e machuca.

É sentimento faceiro de gosto doce e amargo que traz lágrimas aos olhos. É a comprovação da existência dos laços, a reação natural de fios vermelhos que foram separados, que urgem para novamente convergir, se unir.

E é também o espaço sagrado, das memórias bonitas, de sorrios marcados, de coisas boas que ficaram para trás, em algum pequeno pedaço da história.

É paradoxo cruel e único que torna cada segundo eternidade muitas vezes infernal.

Saudade é o vazio estranho, inquieto e tamanho que chega a impedir de dormir.
É o que se sente sem muitas vezes saber definir.

É o que mais tenho sabido sentir.
E é também o que sinto sem ti. Aqui.

(Sinto sua falta mais do que sou capaz de medir) 
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Espelho

Posted by Carol Riff On 26.10.13 0 comentários
Todos os dias me escondo, mascaro-me, renego-me. Todos os dias maqueio-me por fora e por dentro, escondo meus medos, meu pior, minha inveja, meu fel, dentro dos meus sorrisos. Escondo meu cansaço debaixo de minha maquiagem, varro minhas inseguranças para debaixo do tapete de forma pífia, pois elas sempre voltam a me assombrar.

Todo dia, tento parecer o melhor de mim. Mesmo que o que me rodeie seja o pior.

Escondo-me atrás de minhas roupas, atrás de minhas atitudes, mascaro minha dor com as coisas simples, deixo longe de todos o meu pior e mais escuro lado. Todos os dias enfrento de cabeça erguida tudo, mesmo que por dentro seja consumida por mil e um fantasmas que jamais vão me abandonar.

Todos os dias, evito o espelho. Evito minha imagem refletida atrás do vidro. Evito minhas marcas, evito me encarar, evito porque sei que de todos os complexos, Narciso não é o meu. Evito-o porque ele e eu somos capazes de encontrar as rachaduras da armadura que construo ao meu redor. Pois é nele que me vejo, sem maquiagem, ao acordar. É nele que noto que mesmo a maquiagem não pode esconder certas coisas,  é nele que me vejo diante de mim.

E isso é aterrador. Aterrador porque não há ninguém além do espelho. Apenas eu. Apenas a minha imagem refletida. Não há ninguém que possa mudá-la se não eu. Ninguém que possa fazer da maquiagem permanente, ninguém além de mim. Ninguém pode curar as feridas, as rachaduras, as dores e o meu pior. Ninguém se não eu. E assusto-me porque sou tão forte quanto fraca, sou o atrás e o à frente do espelho. O que sofre e o que faz. E o responsável por fazer. Sou a responsável por tirar a máscara e por aceitar todo o resto. Sou o ser vivente na frente do espelho.

Todos os dias me olho no espelho.
Buscando por um dia em que fazê-lo me fará sorrir.
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Vício.

Posted by Carol Riff On 18.9.13 0 comentários
Sou viciada, e como viciada me apresento. Como viciada, reconheço minha obssessão pelo cheiro, pelo toque, pela sensação que minha droga me dá. Como viciada, reconheço de forma humilde que quando começo, não consigo parar. Reconheço que sofro crise de abstinência, que penso quase todo o tempo em coisas que não deveria pensar. No papel de viciada, deito e durmo, e sonho, ah se sonho, com algo do qual era mais sensato me livrar.

Mas não se desesperem, eu não vou dizer a clássica frase do "Posso parar a hora que quiser" pois se pudesse sequer estaria escrevendo esse texto, sequer seria estaria compartilhando algo com alguém. O problema é que não desejo parar, é que gosto de minha droga, que a guardo em meu coração como uma dádiva preciosa, tem como ser pior?

Reconhecer-se drogada e apaixonada por sua droga? 
Qual lastimável isso pode ser?

Vocês devem estar se apiedando agora, certo? Pois não deviam. Sou plenamente feliz, acreditem. Não vendo minhas coisas para manter meu vício e apesar de certas vezes prejudicar minha saúde, não é nada que umas ataduras não resolvam.

Pois sou viciada sim, mas em escrever. Sou viciada, de corpo, alma e coração no cheiro do papel, na sensação da caneta entre os dedos, no barulho do teclado enquanto as letras se formam lentamente na tela, como agora mesmo está acontecendo. Sou viciada no poder de Deus que a mim é conferido cada vez que começo uma história, nos vôos aos quais submeto minha imaginação, que como criança arteira sorri e vai, sem nem se preocupar. Sou viciada no respirar fundo após a escrita, no expurgar dos sentimentos que escorrem em palavras, dão-lhe vida e dão-lhe morte. Sou viciada em escrever até, em meu ritmo íntimo encontrar um ponto final.

E mesmo que leia, grito para o nada, para os bytes vazios de uma página de web, para um caderno solitário que apenas eu sei entender. Deus! Como amo escrever!





Constatação que me surgiu quando, em um ônibus, vi-me desesperada pois havia esquecido meu costumeiro caderninho de escrita em casa e não havia papel nenhum a meu alcance que pudesse guardar com carinho minha idéia.

É, doente ou não. Sou viciada em escrever.
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Unbrekable ya know?

Posted by Carol Riff On 24.6.13 0 comentários

Fly with me cause I'm a Warrior, feel my Power, see my light cause I don't wanna be dark no more.
Move your head, move your soul, move it all along and don't take it slow, dance. Even if you fall keep running, cause when we fall we still have our dreams, we still have our sins, remember the memories of sunny and rainy day. Fight and win your our battles cause everyday I won mine.

U know? I'm kinda unbreakable 

Cause I'm always standing still, cause I'm always wanting to feel new. I'm always falling down, I'm always standing my ground. I'm always running to nowhere, with my broken wings that keep me flying that way. U know i'm unbreakable, even if I'm broken.

I got the power, I got the warnings, I'm taking the shots, one, two, three. I'm just trying to be. To my old fears I can only say goodbye, to the new I say hello cause I'm no hero I'm just a warrior. 

So no more pain, goodbye, goodbye, and no more cry, goodbye goodbye. I will have no mercy, if you're ready to feel put your hands in the air. 

I'm just a freakshow, I'm just someone nobody know, like a sad drama actor freezing on the snow. I'm just dancing in the floor, dancing in the life, dancing with a knife. I'm just dancing in the rain, just smiling without refrain. I'm lost on my own mind, I'm slave of my own sight. I'm not so brave.

I'm just a tired one, with the heart beating fast. I'm just tired of me, tired of be, tired of see. I'm just... I'm from zero... I'm just being punched in the face, help me if you can. I'm just the rebel one.

What can I do? What can I do? I only have one shot, one chance. I'm shouting my voice to the world ! I only have one chance, u know?

U know, I'm unbreakable one, U know? 
I can't lost myself, I can't loose myself.

Cause I know the pain I'm going through even when I close my eyes. Cause I feel the love around me, cause I feel everything that made me be.

Yes i'm hero, but still I'm from zero. I'm a Warrior, I got the Power, I'm unbrekable and all I can say is that

I remember.
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Paradise

Posted by Carol Riff On 9.6.13 0 comentários
Corria pelo campo florido, os pés descalços tocando a terra e a grama, os cabelos balançando ao sabor do vento. Sorria. Feliz como nunca antes. Sorria. Enquanto rodopiava e assoprava os dentes de leão , gargalhando com vontade quando a flor se desfazia em mil pedaços que voavam pelo ar. Se sentia livre. Maravilhada com todas aquelas cores e sons.

O olhar infante e curioso passeando por todos os lugares

               
                Ainda rindo, deixou-se cair no chão, apreciando o céu azul do seu pedaço de paraíso, tão colorido e musical. Observou as nuvens branquinhas e o céu azul fechando os olhos levemente com o pensamento de que poderia ficar pra sempre ali, e de fato poderia.
Sem perceber, caiu no sono, somente acordando muitas horas depois com um leve pingo gelado da chuva em seu rosto.

                Ergueu-se assustada, o céu agora cinza e trevoso e a música substituída pelo sons dos trovões que ribombavam, o que havia acontecido? Em um átimo a chuva veio forte, os pingos grossos e gelados caindo sobre todo o lugar, fazendo estrago.  Com frio, fitou as próprias mãos, percebendo com espanto que elas perdiam a cor, que lhes escorria como tinta. O que estava acontecendo?

                Com o coração martelando olhou em volta, sentindo os olhos marejarem ao notar que todo o lugar perdia sua cor, o brilho em seu olhar se apagando lentamente, a chuva levando embora sua felicidade infante e inocente. Porque aquilo estava acontecendo? As lágrimas se misturaram à água que vinha do céu, caindo sem parar enquanto ela perguntava para os céus porque as coisas tinham de ser assim?

Porque tudo não poderia ser bonito sempre?

                Por que justo com ela? Justo com seu lugar tão especial e bonito? O que ela havia feito de errado para que aquilo acontecesse? Chorou alto, a dor se espalhando por todo lugar. Sentia-se cinza, invisível, insignificante. A vida havia se tornado cinza. Caiu de joelhos, abraçando o próprio corpo, caindo lentamente até estar deitada na outrora verde grama, as lágrimas ainda abandonando seus olhos enquanto ela pedia baixinho para as coisas voltarem ao normal.

                Seus olhos fecharam-se lentamente, o coração cada vez mais devagar como se estivesse desistindo, a alma drenada sem que ela soubesse por quê. Até que tudo mudou. Em um novo átimo, num último piscar, seus olhos captaram a cor, se abrindo ávidos e desesperados e ela viu. Viu a borboleta azul que praticamente reluzia na paisagem cinza, parada imponente sobre um tronco, como se estivesse realmente se exibindo.

                Tirando forças não sabia de onde ela se ergueu, as roupas sujas de lama não fazendo nenhuma diferença. Algo dentro de si a compelindo a correr atrás do pequeno animal que agora voava em direção a um nada mais cinza que todo o resto. E ela não teve dúvidas, apenas começou a correr.

E correu, correu, correu. Os pés afundando na lama, se tornando mais pesados e difíceis, cada vez mais difíceis, o barro se agarrando aos seus pés tentando parar seu movimento enquanto ela apenas fazia mais força e se obrigava a ir a frente. Algo lhe dizia pra ir em frente. O pequeno animal voando logo à sua frente, embrenhando-se entre árvores e retornando, sem qualquer rumo.

A menina se sentia cansada, mas se recusava a desistir. Tinha que alcançar a borboleta! Por quê? Nem ela sabia explicar. O ar faltava e as pernas reclamavam, mas ela continuava com as mãos estendidas seguindo em frente, chamando a bela azulada que parecia executar uma dança no ar, com total leveza e graciosidade.

Demorou um tempo para que finalmente alcançasse o animal, pegando-a entre seus dedos trêmulos com cuidado para não lhe machucar, sorrindo ao ver sua cor azul brilhar. Fitou novamente o horizonte cinza que se estendia à sua frente e sorriu, notando que a chuva diminuía cada vez um pouco mais.

Nenhuma tempestade era infinita, certo?

                Ainda com o animal entre os dedos pôs-se a caminhar, a inocência deixada um pouco para trás enquanto ela apena sorria levemente, decidida sobre o que fazer. Quando o sol finalmente voltou a sair no céu ainda cinza, tocando sua pele de leve, ela tomou uma decisão. Uma que mudaria todas as outras.

Não gostava de cinza. E não deixaria as coisas assim.

                Com um sorriso travesso no rosto, soltou o animal, vendo quando este voou gracioso ao seu redor. Gargalhou novamente ao notar o estado de suas roupas e imaginou o estado de seu cabelo, levando a mão até o mesmo só para perceber que ele estava todo bagunçado. O que importava? Baixinho, assobiou uma música que gostava, dançando-a de olhos fechados. Os sons retomando ao lugar enquanto as cores pareciam voltar. Coloria o lugar com sua alma de volta.

Coloria de volta seu paraíso.

                Quando voltou a abrir seus olhos, nada parecia como antes. O cinza lentamente se transformava em cor e a música baixinha continuava tocando, como se aos poucos ganhasse força para voltar. Riu novamente, a risada ecoando por todo o lugar, reverberando dentro dela mesma e foi aí que ela finalmente entendeu.

Não importava se a tempestade levasse as cores do seu paraíso embora.
Ela sempre poderia voltar a colori-lo, bastava que estivesse disposta a cair e se levantar.


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The Pain I'm going through

Posted by Carol Riff On 28.4.13 0 comentários
Eu normalmente venho aqui com algum texto, alguma história que seja capaz de traduzir algo que eu estou sentindo, é prático e costuma ser o meu melhor momento de escrita, exatamente quando as coisas saem direto do meu coração, quando não preciso fingir que sinto coisas que não sinto ou me colocar no lugar de quem quer que seja pois afinal escrevo sobre o lugar que eu mesma sou capaz de ocupar. A questão é que as vezes, as palavras ditas de forma crua, sem estarem escondidas ou mascaradas são necessárias, e nesse momento eu preciso mais do que nunca externar isso para algum lado, mesmo que seja numa página abandonada pelo mundo, algo que ninguém lê. É preciso expurgar a dor que eu estou sentindo, nem que seja um pouco.

A verdade é que eu estou cansada, como um soldado que volta da guerra, como alguém que perde as esperanças aos poucos, uma peça metálica que perde seu brilho pouco a pouco. A diferença básica é que quando algo perde seu brilho logo se vê e o meu sofrimento está aqui, entalado dentro de mim, preso em um canto do qual eu não posso deixá-lo sair. O motivo? Simples. Já ouviu falar em 'efeito dominó'? Pois é, se um cai todos caem e teoricamente eu deveria ser aquela com maior resistência por ser  a mais nova mas curiosamente não sou feita do mesmo aço do qual minha mãe ou pai são feitos. Me sinto frágil como um metal qualquer, um fio de cobre que se dobra a qualquer coisa mas que ainda assim tenta se manter de pé.

Não é fácil e eu sinto como se a chama da minha esperança se apagasse mais e mais a cada dia. Eu tenho 19, mas a vida pesa sobre meus ombros como se eu fosse muito mais velha, ela me derruba e ri na minha cara e cada vez mais eu tenho menos força pra levantar. Menos força porque por mais fé que eu deposite na teoria de que "As coisas vão melhorar" elas não tem realmente melhorado. Na verdade, eu poderia dizer que elas tem piorado e nem toda 'união de família' que eu costumo me orgulhar parece ser efetiva. Vai lá tentar pagar contas com 'união de família' que você entenderá do que estou falando. Nós trabalhamos e trabalhamos e nada parece dar jeito, como se de uma forma louca ainda tivéssemos que passar por mais provações do que as que já tem aparecido em nosso caminho.

Me vejo ainda mais desmotivada ao notar pessoas reclamando de coisas simples enquanto eu desmorono por dentro. Ninguém tem culpa, afinal, do meu azar ou de tudo que acontece, mas dói pensar que um tanto de gente 'má' por aí vive bem enquanto eu e meus pais que lutamos com todas as nossas forças continuamos na mesma situação de merda. Andando pra lugar nenhum, com perspectiva de nada. Veja bem, eu amo meus pais, amo minha vida mas morro por dentro cada vez que vejo no olhar deles o nervoso por não saber como será o dia de amanhã.

Acima de tudo, eu tenho medo, medo de mim, da vida, de tudo que ainda vem por aí e que me sufoca só de pensar, de tudo que ainda vamos ter que enfrentar. Eu só queria que as coisas dessem um pouco certo, será que é pedir demais? Ter um pouco de conforto, só um pouco... Eu só sinto que não aguento mais dor, que não aguento mais a mim mesma, mesmo que ainda me mantenha de pé, segurada por algo que nem eu sei o que é. Só precisava dizer...

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Coming Home

Posted by Carol Riff On 2.3.13 0 comentários

Os passos hesitantes ecoavam pelo silêncio na noite, o vento gelado sacudindo a poeira que se acumulava no chão, quantos séculos fazia desde que havia estado ali? Limpou como pôde a sujeira do rosto, sentindo um frio na barriga ao qual já estava acostumado, mas do qual ao mesmo tempo tinha saudade. Era um calafrio bom que percorria sua espinha. 

Fechou os olhos, se arrependendo imediatamente ao ouvir o barulho das explosões e dos tiros, o cheiro do sangue -agora seco- invadindo suas narinas e trazendo a sensação de náusea de volta, sensação essa que ele suprimiu, faltava pouco... Tão pouco! 

Deu mais alguns passos, a janela acesa já sendo detectada por seus olhos, longe, quase no horizonte, mas estava ali, como a muito ele não via. As cartas que ela mandara firmemente seguras entre seus dedos sujos, que também seguravam às de seus companheiros. Tantas vidas perdidas. A dor e o horror voltando de uma vez só, fazendo seu corpo inteiro tremer e novamente ele suprimiu as lembranças que insistiam em lhe assombrar, faltava pouco...

Já podia ver sua casa quase toda agora e logo sentiu a vista embaçar, tantas emoções aflorando juntas que ele apenas não conseguia controlar. Esperara tanto! Orara tantas vezes aos céus para que estivessem bem! Olhara tantas vezes para as estrelas sonhando que um dia estaria entre eles novamente, entre as risadas infantis que tanto amava. Entre os braços delicados com que tanto sonhara. 

Temera tantas vezes que -assim como os companheiros- dele só restasse uma carta com meia dúzia de palavras que jamais seriam capazes de expressar o quanto sentia saudade de casa. Temera terminar morto, afogado em seu próprio sangue ou até mesmo louco, sufocado por sua moral que escorria pelo ralo cada vez que um gatilho era apertado. Era desumano, era doloroso e acima de tudo injusto. Só podia rezar e pedir a Deus para lhe perdoar.

Como afinal determinar o lado certo de uma guerra?

E quando finalmente estava diante de sua casa, deixou-se cair de joelhos no chão. As lágrimas rolando pesadas por seu rosto, a fraqueza que ele tanto escondera finalmente aparecendo, sugando-o. Suas forças esgotadas , sugadas pelos horrores da guerra. O sofrimento corroendo a alma já ferida enquanto a voz aumentava mais e mais, como um grito doloroso de uma mãe que perde seu filho.

E ela, -ah... que saudade dela!-  o ouviu.

Não soube como, nem porque, mas simplesmente ouviu-o, os pratos que carregava indo ao chão, o cachorro velho se levantando e começando a latir enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Correu para a porta, abrindo-a sem mais demora, sentindo o chão voltar a estar sob seus pés novamente, pois há muito havia sido lhe tirado. 

Correu, novamente correu, com tudo que pode, as crianças berrando atrás de si e acompanhando seu passo enquanto ela simplesmente se jogava contra o corpo forte que se sacudia em soluços violentos e ela o agarrou, apertando-o contra si com tudo, as lágrimas agora rolando por seu rosto alvo que se sujava contra a pele dele. Não muito depois os lábios se encontraram, a saudade tornando o momento mágico, quase irreal. O amor que os unia crescendo tanto que poderia engolir o mundo.

Logo as crianças vieram, escondendo-se atrás dela, temerosas com o "estranho" sujo que sua mãe abraçava tanto tempo... Ele as fitou, e elas finalmente entenderam quem estava diante de si, jogando-se contra o homem sujo, quase atirando-o no chão. E ele não se importou... Abraçou-as com força, com a mesma força com a qual jurara voltar vivo, aquela mesma sofrível, desesperada.

Sentiu novamente os braços dela ao seu redor e sorriu de forma verdadeira, pela primeira vez depois de muito tempo, falando baixinho para os três que significavam sua vida:

"Depois de todo esse tempo eu estou voltando pra casa para vocês"

Porque não importava o que ele fizera, nem o que deixara de fazer, podia demorar o tempo que fosse, mas ele sempre voltaria para sua casa, para seu lar, para o lugar aonde seu coração escolhera morar.




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Efêmero

Posted by Carol Riff On 28.12.12 0 comentários

Observava-o de longe, os olhos claros transbordando devoção, tão grande que chegava a ser proibida, doentia. Seus olhos não largavam a figura dele, não deixavam-no ir. A figura frágil do garoto apanhando lhe ferindo a alma e incitando a raiva e o ódio que seu ser angélico jamais deveria ter.
               
Queria protegê-lo, mas não somente, queria mais. Queria abraçá-lo, amar aquela existência que fizera da sua tão mais viva, queria mais. Queria, como nunca antes cometer um pecado, se sujar no fel daquele ser, unicamente por amor. Queria mais.
               
Era um escolhido de Nathaniel, escolhido a dedo pelo próprio luminoso, que estava perdendo sua luz, apagando-se pouco a pouco. Como uma tela branca que se torna turva, sua pureza sendo maculada a cada segundo, sem que, pudesse evitar. Sua natureza havia sido cruelmente alterada pela magia mundana daquele ser, daquele humano, daquela alma sofredora que lhe cativava sem saber

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas...

                Mas ora, como poderia um humano ser responsável por seu próprio anjo da guarda? Onde já se viu tamanha heresia?!  Era um anjo, da casta dos mais puros e inocentes, mas, no entanto, estava caindo. Se rendendo, se corrompendo e pecando. Seria tão grave assim seu pecado? Pensou por um milésimo de segundo e no instante seguinte pedia perdão por ser fraco, as lágrimas escorrendo por seu rosto enquanto seus joelhos tocavam o chão, em seu último ato de submissão. Sua luz cada vez mais fraca enquanto as lágrimas caíam no chão. Sua luz sumindo... Até que simplesmente se apagou.
                Aquele foi o último tapa, o último golpe que o agressor desferiu contra seu protegido, pois no instante seguinte tudo era fogo e o fogo se tornara tudo, consumindo e queimando o corpo daquele que agora gritava. Seus olhos estavam tingidos, de vermelho-sangue do ódio e seu coração chorava baixinho por sua corrupção, mas não importava.

                Virou-se, o calor das chamas não lhe afetando e apenas fitou seu precioso, encolhido contra a parede, tremendo de medo de tudo que estava acontecendo. Abriu os braços, o vermelho dos olhos sumindo e dando lugar ao seu azul tão acalentador, sorriu para aquele ser maravilhosamente sujo em um chamado delicado, em um “Está tudo bem” que não precisava ser proferido.

                Suspirou ao sentir o calor dele no seu e abraçou-o, tão forte quanto era capaz. E em seguida chorou, de amor, de tristeza e de felicidade. Suas lágrimas trazendo paz àquela alma tão atormentada. Porque tinha que ser assim? Pensou enquanto apertava-o mais contra si, querendo gravar em sua essência cada centímetro de pele daquele ser, querendo fundi-lo a si para jamais o perder. Pena que seu tempo era tão curto.

                Era um caído e como tal seria destruído em breve, enviado ao inferno como assassino que era, mas naquela hora não se importou. Naquela hora, só lhe importava a respiração calma que batia contra sua pele e o sorriso doce que tomava os lábios daquele ser em seus braços. Naquela hora só importava que aquela criatura frágil sentisse seu amor, que se alimentasse dele, que se purificasse nele. Seu intenso, proibido e acima de tudo efêmero amor.

Pois este não tardaria a sumir. 
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Special

Posted by Carol Riff On 12.10.12 0 comentários

                Entrou em casa largando o molho de chaves pesado sobre a mesa de vidro e suspirou. Sentia-se tão frágil. Sentiu os olhos se enchendo de lágrimas sem nem saber o porque. Só sentia aquele algo vindo de dentro de si, um grito que estivera entalado tanto tempo, guardado em sua alma e agora se liberava, na forma das gotas que lhe escorriam pelo rosto como facas.

                Ouvia as vozes dos parentes vindas de outro cômodo, ouvia a forma como riam, como pareciam desfrutar dos momentos e apenas se esquivou, entrando em seu quarto rapidamente, caminhando como um vulto, sem nem sequer ser notada por eles, de tão absorto que estavam em sua própria felicidade.

                Fitou-se no espelho do quarto e só pôde sorrir amargamente. Era uma sombra, um resquício ridículo do que um dia fora e simplesmente não sabia o que fazer. Sentia-se tão sozinha, tão abandonada que até mesmo respirar se tornara difícil. Quando as coisas haviam se tornado assim? Quando tudo se tornara tão pesado? Quando viver havia se tornado um tormento e não mais uma benção?

                Não sabia precisar, só sabia que toda a magia que seus dias outrora tinham estava sumindo pouco a pouco, escapando-lhe entre os dedos, sem que pudesse agarrar. Deixou o corpo se encostar na parede e lentamente caiu, chegando ao chão em alguns segundos. O lápis já borrado, manchando o rosto bonito que sempre havia sido adornado por um sorriso. Um sorriso radiante e lindo.  Que havia simplesmente... Se perdido por aí.

                Abraçou os próprios joelhos sentindo o peito arder. Ah a dor... A rotineira companheira, antes aplacada por coisas banais, que agora matava-a pouco a pouco, tirava suas forças e apenas dava um jeito de tornar tudo pior. Cerrou os olhos com força e se escondeu, encolhendo-se tanto como se quisesse sumir, sabendo que isso não era possível. Doía tanto! Doía tanto estar só!

Não chore!

                Uma voz fina e doce pode ser ouvida e ela então conteve os soluços por algum segundo. Quem era? Perguntou ainda escondida de si mesma e sentiu um carinho delicado em seu cabelo preto, um afago delicado repleto de amor. 
                Lentamente, a dor foi passando e suas lágrimas foram cessando, secando enquanto aquela tempestade dentro de si se acalmava, a tsunami se tornando uma marola agradável, daquelas gostosas de se sentir a beira-mar. Devagarinho abriu seus olhos encontrando uma garota baixinha com bochechas gordinhas que ela teve vontade de apertar, sorrindo-lhe genuinamente enquanto estendia sua mão pequena em sua direção.

                E então mesmo sem entender muito bem pegou a mão da menina, sentindo quando ela a puxou para cima, fazendo-a se levantar. A garotinha, que ainda segurava sua mão fez com ela se virasse na direção do espelho apontando com o dedo pequenino a imagem para que ela própria pudesse ver.

E novamente seus olhos se encheram de lágrimas.

                No espelho, quase como se fosse uma foto ela estava lá, cercado de todas as pessoas que lhe amavam, que lhe amparavam e lhe ajudavam a se reerguer, segurando-a para que não caísse novamente.  Prendeu um soluço profundo e apertou os dedos pequenos contra os seus, fitando a garotinha que continuava com um sorriso no rosto para logo em seguida abraçá-la com toda força que podia, separando-se apenas para perguntar seu nome. Notando que ela simplesmente não estava mais lá.

E quando decidiu procurar pela mesma sentiu algo duro contra o rosto, reclamando de dor ao notar que caíra da cama, aonde provavelmente adormecera. Fora tudo um sonho? Apenas um sonho? Respirou fundo e antes que pudesse entender melhor a situação viu o quarto sendo invadido por sua família e amigos que lhe parabenizavam, enchendo-a de amor, carinho e proteção enquanto a última frase que ouvira da menininha ecoava em seus ouvidos.

Não duvide jamais que você é especial . 



I wanna dance the night away with you

I wanna love because you taught me to
I wanna laugh all your tears away

I wanna tell you and this is the only way I know

And hope one day you’ll learn the words and say

Ficou uma bosta mas é pra você menina, pra você saber o quanto você é especial. *u* ~Yá 
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Estrelas

Posted by Carol Riff On 7.9.12 0 comentários
Talvez eu esteja sendo dramática mas como sempre, minhas emoções passeiam em minha pele, alma e coração, e terminam traduzidas em minhas singelas palavras que, humildes se unem para tentar explicar algo que eu mesma não sou capaz de entender.

É nas folhas de um caderno que retomo minha paz, é nos sentimentos tomando forma e no barulho gostoso da caneta riscando o papel que encontro minha melodia favorita. Excêntrica e única.


É chorando e temendo que encontro minha coragem, que vem lá do fundo, como uma luz irrompendo por dentro de uma densa escuridão. É depois de minha própria tormenta, em minha calmaria, que encontro meu lado forte, guardado sempre dentro do pequeno lado frágil. É da minha natureza cair e me levantar, não desistir e sempre ir a frente.

É da minha natureza também, ser inocente, colorir o mundo de boas intenções que às vezes são feitas dos mais densos tons de cinza, faz ´parte de mim chorar minhas lágrimas e as dos outros,  gritar muda sem nem perceber.

Hoje gritei, em um total silêncio, para mim mesma de medo, puro e simples. Gritei em minha alma, em meu âmago, naquele pedacinho perdido que fica a deriva. Gritei para que só eu pudesse ouvir e talvez tenha me escondido dentro de mim mesma, até que uma mão foi estendida.

E o calor reconfortante de um ombro amigo se fez sentir, mesmo que em um sentido dolorosamente figurado. Como em um amanhecer, belo e desafiador, que marca o começo de um novo dia e a tomadas de novos rumos, senti-me crescer em meu interior. O calor se estendendo por todos os lados e me tornando gigante.


Gigante o suficiente para resgatar minha coragem, que julguei ter perdido, e para sorrir mesmo estando diante de um grande desafio capaz de me fazer tremer. Me armarei e me prepararei, sendo ciente de meu medo e estando preparada para enfrentá-lo de peito aberto, para cair, levantar, sorrir e chorar.

E então poder ver quem sabe, um céu cheio de estrelas após um longo dia difícil.
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Cinzas

Posted by Carol Riff On 6.8.12 1 comentários
          Rabiscou o papel sem muito interesse bufando em seguida. O café fumegante sobre a mesa, ao alcance de suas mãos pálidas enquanto a chuva batia forte em sua janela. No papel o começo de um desenho, um rosto sem expressão nenhuma emoldurado por cabelos longos e escuros que ela simplesmente não conseguia terminar. Podia chorar de frustração, fazia tanto tempo assim desde que fazia aquilo?

          Pensou nos últimos meses e pensou também no quanto estava cansada, no quanto sua vida havia se tornado difícil. Quem tivera a brilhante idéia de mascarar o lado mais feio da vida e só mostrá-lo agora? Sentia-se tão fraca e cansada que às vezes tinha vontade de sentar e chorar, mas sabia que não podia. Havia passado da época de chorar por qualquer coisa, os anos haviam passado e ela agora era uma mulher adulta. Adultos deveriam enfrentar seus problemas de frente não?

Porque raios parecia tão difícil?

          Fitou novamente o rosto sem expressão se lembrando de seus últimos desenhos antes de sua vida se tornar um caos. Eram todos sorridentes e tinham olhos brilhantes e esperançosos. Porque simplesmente não podia resgatá-los? Aonde seus sorrisos haviam se perdido? Quando respirar havia se tornado tão complicado e exaustivo? Quando havia se tornado tão amarga? Não sabia ao certo precisar, só sabia que estava insuportável, ao ponto de não aturar a si mesma.

          Largou o lápis com raiva e deitou-se brevemente sobre a mesa, as pálpebras pesando e se fechando lentamente. Sem perceber acabou dormindo...
Acordou com os raios de sol incomodando-a e resmungou qualquer coisa, extremamente irritada, esquecera a porcaria da cortina aberta! Abriu os olhos e se ergueu, assustando-se em seguida quando percebeu que não estava mais em sua sala monocromática, mas sim em um campo aberto com flores tão amarelas que seriam capazes de ofuscar-lhe a vista. O que havia acontecido? Moveu-se incerta notando que seus pés estavam descalços e o cabelo antes preso solto, balançando ao sabor do vento bem como o vestido branco que usava.

          Caminhou por um bom tempo, imersa na sensação de paz que aquele lugar lhe trazia. As flores dançando levemente junto a brisa e em um dado momento ela pôde jurar que uma música havia começado a tocar, vinda sabe-se lá de onde. Não era possível determinar, apenas ouvir. Fechou os olhos por alguns segundos, sentindo cada acorde da melodia entrar em si e tocar o ponto mais fundo de seu ser. Sorriu abertamente e assim ficou até sentir um toque gelado em seu pulso abrindo os olhos rapidamente devido ao susto acabando por assustar a pessoa que lhe tocara.

          A menina virou-se e apenas saiu correndo e ela sem pensar muito saiu em seu encalço, seguindo o rastro que os cabelos cor de ébano deixavam conforme a garota se mexia, procurando sumir entre todas aquelas flores. Queria gritar-lhe para parar de correr, mas por algum motivo sua voz não saía então apenas continuou correndo, notando que conforme se afastavam, as flores se tornavam menos amarelas e as cores pareciam sumir gradativamente.

          Demorou um tempo para que ela finalmente parasse de correr, as cores agora haviam sumido e o lugar parecia estranhamente silencioso, tanto que dava até agonia. A garota apenas apontou e seus olhos rapidamente seguiram a direção se arregalando com o que viram. Ali, no meio de todo aquele cinza, havia apenas um ponto colorido. Uma pequena flor amarela quase murcha que parecia lutar para sobreviver.

          Sem perguntar nada se aproximou, agachando-se do lado da flor e sentindo um estranho aperto no coração quase uma tristeza. Virou-se na direção da garota e se assustou novamente quando esta se abaixou ao seu lado, o cabelo cobrindo-lhe a expressão enquanto os dedos finos tocavam a flor tão frágil que parecia prestes a quebrar. Sentiu-se triste por ela e tocou de leve o ombro, vendo-a se assustar erguer a cabeça em sua direção. Subitamente sentiu seus olhos arderem e os coçou, vendo a menina se transformar em um grande borrão.

          “Está lutando bravamente para não ceder, mas ainda mantém sua luz...” –A voz soou baixa em seus ouvidos, como um sussurro e arrepiou todos os pelos de seu corpo. Quando abriu os olhos de novo suprimiu um grito de susto. A menina estava parada a sua frente e os olhos negros tão iguais aos seus estavam vidrados nos seus enquanto um sorriso travesso brincava em sua face. “Cuide bem de mim...” e em seguida tudo se transformou em um grande clarão.

          Acordou num sobressalto, derrubando todos os papéis que estavam sobre a mesa. Respirava ofegante, ainda afetada pelo sonho. Buscou os papéis no chão, remexendo-os freneticamente até encontrar seu último desenho incompleto, ainda sem nenhuma expressão. Fitou-os por alguns segundos e logo recomeçou a rabiscar mordendo a língua de leve enquanto deixava o grafite sujar o papel.


         Quando finalmente acabou, um sorriso travesso brincava em seu rosto. A menina agora tinha uma expressão, nem triste tampouco alegre demais. No rosto dela havia um sorriso tranqüilo enquanto seus olhos passavam determinação e até certo cansaço, assim como a expressão de que alguém que luta, mas se recusa a desistir, crendo que tudo dará no certo no final.

          A vida podia ser difícil e cruel na maioria das vezes, cansando-a e ofuscando sua luz e sua inocência, mas ela sabia ah se sabia, não iria deixar ambas morrerem por mais complicado que fosse de cuidar. Por mais árdua que a vida fosse, jamais deixaria que ela vencesse porque aquele era um jogo para dois e ela podia não ser a melhor jogadora, mas certamente era aquela que não desistia.
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Colcha de memórias.

Posted by Carol Riff On 28.4.12 0 comentários
                   Às vezes, em momentos um tanto inusitados, me perco em devaneios sobre a vida, sobre quem eu fui, sou e ainda serei. Pois afinal, o que sou eu senão uma grande colcha de retalhos, costurada ao longo dos anos de forma única, uma junção de muitas estampas, uma coleção de muitas memórias boas e ruins que tornam minha existência bela e rara, além de única.

                   Não peco ao dizer que se olhar tudo pelo qual já passei, saberá quem eu sou e também não peco ao falar que muitas dessas memórias que fazem parte de mim, zarparam no barco da minha vida sem qualquer permissão.

                   Há muitas dores que eu, por vezes, quero arrancar de mim, mas quando penso melhor, vejo que por mais lacerantes que estas sejam, serão sempre uma fonte de grande aprendizado. Pois não vivem dizendo que a vida nunca te dá um peso maior do que aquele que você consegue suportar?

                   E novamente, mesmo que tenham me trazido algum dissabor, elas continuam sendo partes lindas da minha colcha de retalhos, bem como partes de mim, da minha vida e da minha alma, que juntas formam uma história ímpar a qual eu escrevo na medida do possível.

Uma vez que a maioria dos textos tende a criar vida própria.

                   Uma linda história, sobre uma pequena criatura que não sabe nada da vida e sua inseparável companheira.

Sua brilhante e valiosa colcha de memórias.
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My heart is not broken.

Posted by Carol Riff On 27.4.12 0 comentários

            A menina entrou na sala e fechou a porta com força, a respiração ofegante de alguém que havia corrido por uns bons minutos. Encostou-se a porta, deixando o corpo escorregar por esta mesma até que estivesse no chão. Respirou fundo, tirando os óculos de armação negra e larga do rosto, a mão tremendo sofrivelmente e as lágrimas que tanto segurara finalmente transbordando.

            Suprimiu os soluços dolorosos que tentavam irromper de sua garganta, não choraria daquela forma, pensou. Não daria a ele exatamente o que ele queria. Podia estar quebrada e magoada, mas seu orgulho se tornaria o pilar substituto que ficara após a demolição de sua confiança.

            As palavras cruéis do outro ainda ecoando em sua cabeça como uma canção macabra, as risadas dos amigos dele e o deboche estampado em seus rosto marcado a ferro em sua memória. Nunca havia se sentido tão pequena e boba, tão idiota e insignificante! Apertou a saia com força, a raiva por conta da humilhação tomando conta de si de forma avassaladora. Berrou alto, sabendo que ninguém ia lhe ouvir, por conta do isolamento acústico que a sala tinha.

            Ergueu-se, ainda sentindo suas pernas tremerem um pouco. No rosto, o rastro do lápis preto que colocara de manhã apenas para parecer mais bonita. Fitou-se no espelho do local, os olhos vermelhos, a maquiagem borrada e a boca inchada. Sorriu amargamente diante da própria aparência, mas não se ateve ao fato, desviando seu olhar para o piano negro que a sala continha.

            Caminhou a passos lentos até o mesmo, os dedos escorregando delicadamente por cada tecla, enquanto um meio sorriso surgia em seus lábios. Sentou-se diante do mesmo, tocando uma das teclas e apreciando o som que lhe trazia um pouco de paz. Fechou os olhos, enquanto os dedos pareciam ganhar vida e passear por conta própria sobre as teclas do piano tecendo uma melodia calma e melancólica.

            Lembrou-se dos últimos acontecimentos, a música se tornando mais forte, mais agoniada, as teclas pressionadas com ainda mais força. Os dedos se movendo habilmente, preenchendo a sala do som que trazia uma aquarela de significados. Jogou a cabeça para trás, o ritmo guiando seu corpo e confortando sua alma, um sorriso doce e calmo nascendo em seus lábios.

            Imersa na melodia, nem sequer ouviu quando a porta da sala foi aberta de supetão, fazendo um alto barulho. O menino parou diante do piano, igualmente ofegante, sorrindo ao notar a expressão serena no rosto da menina. Puxou uma cadeira e assim ficou, admirando o quanto ela era bela daquela forma, o quanto ela parecia forte e confiante enquanto estava atrás daquele piano!

            Quando a música finalmente findou, se entreolharam, não precisando das palavras para entenderem tudo que havia acontecido. E ali mesmo, sem nem proferir nada, firmaram uma promessa, enlaçando os dedos mindinhos com sorrisos calmos.

            Quando o grande dia finalmente chegou, ela não podia estar mais nervosa, as mãos tremendo e a voz ameaçando falhar, mas ele, como sempre, estava ali para lhe tranqüilizar. Disse-lhe palavras de conforto e lembrou-lhe de quanto trabalho haviam tido para chegar ali, afirmando sempre que não iam desistir. Ela assentiu, sentindo um arrepio quando seu nome foi chamado.

            Subiu ao palco, o vestido azul claro com alguns brilhantes reluzindo às luzes do palco. Passou os olhos pela platéia por um momento só, notando o mesmo olhar debochado de antes, mas encontrando logo em seguida o olhar cálido daquele que estivera sempre com ela. Que a impedira de cair no abismo, segurando firme sua mão.

            Respirou fundo quando as luzes se apagaram e deixou os dedos deslizarem pelas teclas brancas. Sorriu e fechou os olhos, perdendo-se no ritmo que ela mesma criou, enquanto sua voz ganhava espaço, abrindo as bocas de muitos que a assistiam, inclusive as dele. Abstraiu todo o universo a sua volta, cantando com seu coração e alma, lembrando de tudo que acontecera, de tudo pelo que lutara e de tudo pelo que passara.

Aquele era seu momento.

            Terminou a música apenas com sua voz, ouvindo a chuva de aplausos que caiu sobre ela assim que luz novamente se apagou. Levantou-se, a emoção tomando conta de si e as lágrimas querendo novamente sair. Reprimiu-as, não querendo borrar sua maquiagem e apenas fez uma reverência, sentindo sua alma lavada ao olhar o rosto tão conhecido agora com um olhar extremamente incrédulo, de alguém que não acreditava no que tinha visto e de que se arrependera do que tinha feito.
Sorriu abertamente para ele, piscando levemente para o menino do sorriso gentil que se encontrava atrás de suas cortinas, murmurando um agradecimento repleto de emoção.

Ali, naquele momento ao som dos aplausos, não mais se sentia pequena e insignificante. Ali as palavras cruéis e o deboche se tornavam ínfimos demais para serem notados e o pilar de sua confiança era finalmente restaurado, feito de um material tão forte e resistente que nada seria capaz de quebrá-lo novamente.

Ali, seu coração quebrado, finalmente voltava a ser inteiro.
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Brave Heart

Posted by Carol Riff On 2.12.11 0 comentários
Mordeu a ponta do lápis pela vigésima vez, fitando o papel rabiscado, as formas retilíneas se duplicando em seu olhar. Sacudiu a cabeça e tomou um pouco da água que comprara, o coração batendo a mil, tão rápido que poderia enfartar ali mesmo. Riscou mais uma vez a folha branca, notando como a linha saía tremida, como alguém que se equilibra em uma corda bamba, sem nunca achar um ponto fixo.

Suspirou novamente, o medo lhe subindo pela garganta, rastejando por sua pele e roubando-lhe a energia. Olhou para os lados, onde um menino rabiscava com traços firmes sua folha de papel, produzindo aquilo que ela chamaria de obra de arte. Se sentia como um peixe fora d’água e de repente, sem que percebesse os pensamentos que ela havia reprimido por tanto tempo assaltaram sua mente.

E se todos os desenhos fossem daquele nível? Se todos que ali se encontravam desenhassem infinitamente bem? O que poderia ela fazer com seus rabiscos tímidos e desenhos pequenos? Teria ela forças para lutar? Seu medo se tornando um gigante, ameaçando lhe pisar.

O medo ria em sua face, desdenhoso, enquanto se enroscava mais e mais em seus dedos, os movimentos parando pouco a pouco, a garganta secando e uma estranha vontade de chorar aparecendo nela. Estava entregue ao próprio desespero, amarrada por suas amarras invisíveis quando ouviu aquela voz. Acalme-se; Despertou de seu transe, olhando para os lados. Quem havia dito aquilo? Olhou para o papel novamente, as idéias antes trancafiadas voltando com força, um sorriso doce nascendo em seus lábios.

Quem estava rindo agora? Quem estava paralisado? Ela começou a balançar os pés, que não alcançavam o chão, animadamente, cantarolando uma de suas músicas favoritas. O menino ao seu lado lhe fitando com estranhamento. Ela apenas retribuiu o olhar e sorriu, virando de leve a cabeça para em seguida retomar seu desenho tímido. Podia ser tímido, mas era correto;

As pinturas produzidas ao seu lado não mais a assustavam e de repente o medo de tornou um garotinho desprotegido, que até uma pequena garota como ela poderia enfrentar. Sorriu novamente, fitando o medo encolhido no chão, tão pequeno e frágil. Ergueu uma das mãos, pronta para acabar com tudo, até que percebeu algo.

A mão antes erguida e fechada se abaixou, abrindo lentamente até que estivesse na frente do ser encolhido que olhou para a menina de forma curiosa, notando que uma aura dourada e forte a rodeava. Logo reconheceu a dona de tal aura, a coragem que lhe sorria espoleta, como uma criança que desafia a outra para brincar. Ergueu-se furioso, querendo gritar com aquela abusada que se achava melhor do que ele, e se deparou com um sorriso acompanhado de uma mão estendida.

Eu te aceito, disse a menina, porque você faz parte de mim e não existe a coragem sem o medo. O menino piscou algumas vezes, até olhar nos olhos da menina dourada e entender. Um precisava do outro para existir. Ainda com a expressão fechada, aceitou a mão e imediatamente a menina desenhista sentiu-se leve.

Abriu os olhos, fitando seu desenho de novo, a coragem crescendo em seu peito, quase como a alegria de uma criança e no fundo ela sabia. Coragem estava alegre, pois ela mesma havia superado seu medo, o aceitado e entendido que não devia ser dominada por ele. Que era ela quem estava no comando, por mais que ele existisse.

Porque coragem não era não ter medo e sim ser capaz de continuar andando mesmo que este tente lhe parar.

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Autobiográfico ~ 08/10/11

Posted by Carol Riff On 8.10.11 1 comentários
Abriu as janelas com força, sentindo a brisa gelada que vinha acompanhada dos pingos da chuva forte que castigava a terra. A música tocando alta no quarto, ressoando em cada pequeno pedaço de sua alma, envolvendo-a e trazendo paz. Sorriu largo, nem sequer ligando para o fato da roupa começar a colar no corpo, a voz soando firme junto com a do cantor.
Havia tanta coisa errada em sua vida que ela nem sabia por onde devia começar a consertar. Tantos erros, tantas palavras estúpidas ditas e tantas guardadas. Tantas mágoas e sentimentos engaiolados que às vezes afloravam com força, levando-a às lágrimas... Tantos momentos que ela queria eternizar.

Olhou para si mesma enxergando aquele mesmo tom claro de azul... Queria tanto ser como as outras pessoas, feita daquelas cores quentes e vibrantes! Mas não podia. Quantas vezes não desejara poder mudar a si mesma, quantas vezes não pintara a si mesma de laranja, só para ver a tinta escorrer?

Sorriu de forma amarga, como quando fazia cada vez que queria se esconder. Sua pele lisa escondendo as cicatrizes de sua alma, que apesar de não serem muitas, haviam transformado e muito sua vida. Era quase estranho olhar para trás e se deparar com um sorriso inocente de uma menina de ingenuidade tamanha. Ainda era a mesma, mas o mundo a ensinara que nem todas as pessoas são boas.

Continuava tendo as mesmas manias, os mesmos ataques, chorando pelas mesmas coisas e tendo os mesmos medos. Continuava se sentindo culpada cada vez que era egoísta e continuava morrendo de medo do futuro incerto que sempre lhe esperava.

Medo, maldito medo que lhe segurava os tornozelos com força, impedindo-a de ir para frente. Mesmo medo que derrubava sua infantaria com um golpe, que transformava toda sua convicção em pó e que fazia de sua vida um grande terremoto. O mesmo medo que ela sabia ter de enfrentar, o mesmo com o qual ela sempre lutou...

Sentia-se muitas vezes deslocada, uma estranha no meio das pessoas, um pequeno patinho feio no meio de cisnes e a pequena ovelha negra da família. Amava demais e talvez por isso se doasse demais, arranjando muitas decepções no processo mas nunca aprendendo a amar menos. Se perguntava muitas vezes se as coisas poderiam ter sido diferentes e se havia algo de errado com ela;

Tantas perguntas, capazes de parar uma vida. Ergueu-se, os cabelos pingando e sorriu de modo inocente. Sabia bem de suas limitações e problemas, mas também tinha certeza de que não fora feita para desistir. Havia sobrevivido até ali, mantido as chamas de seu fogo, que por mais que vacilassem as vezes, acesas. Apanhando da vida e apenas aprendendo a como bater, pois sabia que quem desiste não nasce para vencer.

Podia cair e cair, mas seria estaria disposta a levantar.
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Shine a Light ~ 29/09/11

Posted by Carol Riff On 29.9.11 0 comentários
Dançava, a música alta entrando em cada um de seus poros, lavando sua alma, levando embora a tristeza que sempre carregava consigo. Movia-se na batida frenética, nem sequer prestando atenção no mundo ao seu redor. Os olhos fechados, um sorriso sereno e satisfeito no rosto; Estava em paz.
Era ali, naquele pequeno momento, entre tantas pessoas que a menina tímida, sempre escondida pelos óculos de armação grossa se tornava uma grande mulher. Era ali que ela se sentia feliz, com seu lápis preto e seu batom vermelho, com seu vestido favorito e o seu all-star já gasto.
As pessoas lhe fitavam, as mulheres invejando sua dança e os homens cobiçando-a, mas ela não se importava. Cantarolava suas letras favoritas e sacudia os cabelos pretos de um lado para o outro, quase como se quisesse lembrar que eles estavam realmente soltos.
Abriu um sorriso largo, o que será que a mãe diria se a visse daquele jeito? 
Riu alto; Certamente a mulher ia arrastá-la pelos cabelos até sua casa, lhe dizendo que não havia criado uma filha para tamanha humilhação. Ela simplesmente não entendia.

Finalmente, os olhos cerrados se abriram, fitando tudo e todos, sem no entanto fixar-se em ninguém. Caminhou lentamente em direção ao bar, pedindo um refrigerante qualquer, recebendo olhares curiosos por parte dos outros, apenas sorrindo como quem diz “O que foi? Nunca viu ninguém beber refrigerante não?”.

O barman sorriu para ela, já estava acostumado e conhecia aquela menina de longa data. Conhecia todos os seus lados, tanto a menina que vivia de maria chiquinha e livros nos braços quanto a mulher que dançava de um jeito simples que funcionava como imã aos olhos alheios. E amava ambos.

Ela simplesmente pegou o copo e sorveu um gole, notando uma pequena agitação por parte das meninas que se encontravam no meio da pista e deu de ombros sem nem virar o rosto em direção ao lugar. Continuaria bebendo suacoca-cola se uma silhueta grande não tivesse sentado ao seu lado.

A menina-mulher então, desviou suas orbes chocolate para o recém-chegado, sentindo o coração falhar em uma batida. Era ele, o dito cujo que a ignorava completamente quando ela estava com seus óculos grandes de grau alto.Ele sorriu, um sorriso branco e genuíno, mas ainda assim cheio de segundas intenções e ela retribuiu, ajeitando de leve os cabelos negros que havia saído do lugar.Ele então se ergueu, puxando-a pela cintura, trazendo-a para dançar consigo e ela apenas alargou mais o seu sorriso, dançando conforme a música pedia.
Lá pelas tantas, uma boca atrevida procurou a sua e ela simplesmente desviou o rosto, recebendo o beijo quente em sua bochecha, seguido de um olhar confuso por parte do garoto; Ela então sorriu largo, tirando os óculos garrafais de dentro de sua bolsa pequena e colocando no rosto, rindo sonoramente da cara de espanto que o outro fez para então virar-se para o barman, seu amigo de todas as horas e dar-lhe um beijo estalado na bochecha, vendo-o arregalar os olhos da mesma forma que o outro fizera.
Sorriu para ambos, piscando um olho e virou-se, caminhando daquele mesmo jeito cheio de suingue de volta para a saída. O coração leve e a alma radiante.

E a certeza de que vencera todas as barreiras de sua timidez.
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Próprio Eu ~18/08/11

Posted by Carol Riff On 18.8.11 0 comentários
Os dedos finos correram pela superfície do espelho, enquanto os olhos capturavam cada detalhe do rosto, as maçãs coradinhas, os olhos bondosos e o sorriso amigável e simpático de alguém que estava sempre disposto a ajudar.

Sorriu. Era linda como uma bonequinha de porcelana, os fios morenos lhe caindo em cachos pelos ombros, a pele branquinha e lisinha quase sem imperfeições e o vestido feito do tecido caro com as rendas delicadas que lhe davam um ar ainda mais angelical. Atraía todos os olhares por onde passava e sorria diante deles.
Acenava levemente para as pessoas que lhe admiravam. Moças tagarelavam sobre sua beleza e a invejavam por parecer tão perfeita. Um anjo sem asas que andava sobre a terra.

Continuava fitando o espelho, notando que aos poucos a imagem se tornava embaçada e distorcida, só percebendo do que se tratava quando a primeira lágrima lhe desceu pela face, correndo rapidamente pela bochecha levemente corada e morrendo no tecido que lhe tomava parte do pescoço. E depois dela, muitas outras vieram, levando consigo a maquiagem perfeita que ela havia feito ao se arrumar.

Sentiu os joelhos tremerem, incapazes de sustentar o peso do corpo que agora parecia pesar toneladas, caindo no chão e sujando o vestido claro que vestira. Os soluços altos preenchiam o quarto silencioso enquanto ela sentia uma mão invisível comprimindo-lhe a garganta e roubando todo seu ar. Sentia-se sufocar, sufocar naquela mentira toda, sufocar naquilo que não era, naquilo que tentara ser e não conseguira.
E foi então que o milagre aconteceu.
O “CRACK” feito pelo espelho a assustou, e ela se ergueu rapidamente, ainda a tempo de ver sua imagem refletida no espelho rachado que criava uma imagem ainda disforme de sua figura outrora perfeita. A imagem de uma máscara caindo. Atônita, ela observou os pedaços rachados do espelho caírem no chão, se transformando em milhões de cacos que não pareciam lhe acertar.

Revelando-lhe alguém.

Recuou alguns passos, assustada com o que estava “atrás” do espelho. A menina rebelde lhe sorriu, sacudindo os cabelos castanhos parcialmente tingidos de vermelho, fazendo as correntes presas à calça jeans surrada produzirem um som. Fitou-lhe atentamente por alguns instantes, o olho adornado por um lápis preto e a boca por um piercing negro e a menina empalideceu.

A figura lhe sorriu debochada, balançando a cabeça negativamente e a menina finalmente notou o quanto eram iguais. O assombro foi diminuindo, enquanto aquela versão dela mesma lhe estendia a mão, em um pedido mudo.
“Liberte-se”
E ela, munida de uma força que nem sabia existir, sem qualquer hesitação, segurou a mão de sua “gêmea” vendo-a sorrir acenando positivamente.
“Seja você mesma”
A menina acordou sobressaltada, olhando e volta e notando o mesmo espelho intacto, sem nenhuma rachadura. Ergueu-se fitando aquela mesma imagem de antes, agora com a maquiagem borrada e torceu a cara levemente. Não queria aquilo, não mais.
Sorriu debochadamente, assim como se lembrara de sua sósia, enquanto as mãos se guiavam para o cabelo, soltando a trança que prendia os fios morenos, deixando-os caírem livres por suas costas. Seus olhos passearam pelo quarto, notando a pequena tesoura esquecida sobre a mesa.

E a mente brilhou em uma idéia.
Tomou a tesoura entre suas mãos e rapidamente a enfiou no meio dos fios longos e uniformes, começando a picotar tufos de cabelo em diferentes direções, sorrindo mais e mais com cada pedacinho que caía no chão. Ria como uma criancinha.

Fitou o vestido que usava, pomposo e caro, mais uma vez colocando sua tesoura para agir, transformando a máscara em um belo acessório. Os risos altos preenchiam o quarto, e logo sua mãe foi ver o que estava acontecendo.
Quase tendo um infarto ao ver aquela cena.
Dentro do quarto, uma menina com cabelos picotados, blusas largas e calça jeans, sorria de orelha a orelha, terminando de retalhar a saia de seu vestido. Expurgando toda aquela sensação ruim que lhe tomava o coração sempre que se via no espelho. Destruindo aquela máscara que ela já estava farta de usar. Quebrando a parede de vidro que a separava de sua essência.
Libertando seu próprio eu.

18 de Agosto de 2011
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Cansada do sapatinho de cristal ~18/07/11

Posted by Carol Riff On 18.7.11 0 comentários
Os soluços já não mais preenchiam o quarto pois até mesmo suas lágrimas haviam secado. Ergueu-se lentamente sentindo um arrepio quando seus pés descalços tocaram o chão frio de mármore. Frio como ela se sentia. Abraçou a si mesma arrastando-se até estar diante do espelho que aprendera a odiar. Levou a mão até a superfície refletora, acariciando a própria imagem, notando o quão igual e o quão diferente era dela própria.

Os olhos vermelhos, o batom borrado os cabelos desgrenhados e o visual sem nenhum cuidado. O quanto havia chorado? O quanto havia lamentado? Não sabia precisar, mas sabia que fazia bastante tempo que suas cortinas se mantinham fechadas, que fazia tempo que ela não saía... Por quanto tempo deixara de viver? E porque? Se enquanto ela se debulhava em lágrimas ele nem se importava?!

Aquela imagem não se parecia com ela. Aonde estavam o sorriso e olhar luminoso que todos tanto elogiavam?! Poderiam ter se perdido assim? Amara, sim, definitivamente o amara e se doara. Quase passara por cima de si mesma, ignorando todos os avisos de pessoas que lhe olhavam preocupadas. Todos eles sabiam. Ela sentia saber, mas preferia não acreditar, ou melhor, acreditar nele. E o que lhe restara? Apenas aquele vazio.

Pensara estar diante de seu príncipe encantado, mas após tudo ele acabara se revelando um sapo. Um sapo que roubara-lhe o coração e fora embora, deixando-a apenas com as lembranças e o rancor por tudo que acontecera.

Passou as mãos pelos cabelos, sentindo o quão sujos e embaraçados estavam e se perguntou como havia chegado naquele ponto. Como fora tão fundo naquele poço se tantos tentavam segurá-la? E foi ali, olhando no espelho, conversando apenas consigo mesma que tomou uma decisão, não procuraria mais pelo príncipe e não choraria mais pelo sapo.

Estava cansada e ficar esperando e se decepcionar. Estava cansada de procurar e não achar nada, de terminar frustrada e foi por isso que prometeu a si mesma que não mais se deixaria afogar naquilo tudo de novo, prometeu que ia se manter de pé, nem que tivesse que buscar forças em seu orgulho. Prometeu se tornar uma princesa independente e forte...

Que não precisa do príncipe para ter um final feliz.
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